«« primeira
|
« anterior
| próxima »
|
última »»
Paginas:
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
- Pacco

CANTO XX
PARAÍSO
16. Quando as gemas (almas) refulgentes de que eu vira adornado o sexto planeta (Júpiter) calaram seus cantares angélicos, pareceu-me ouvir som igual ao de riacho murmurante que faz descer suas águas claras de pedra em pedra, mostrando a abundância de sua fonte original. E como o percutir da cítara resulta em som, como sopro do flautista arranca da flauta sons maviosos, assim formou-se murmúrio suave que, subindo pelo colo da ave formosa, em som de voz foi-se exalando pelo bico, em forma de palavras que se gravaram em minha alma expectante: “Fixa atentamente o meu olho, olho que às águias mortais permite suportar o ardor do Sol”, começou por dizer. “Destes lumes de que sou a estrutura, aqueles que compõem os meus olhos cintilantes sobrepujam em virtude a quaisquer outros. Esse que brilha no centro, qual pupila, foi o alto cantor do Espírito Santo, que de vila em vila conduz a Arca. Agora usufrui o mérito de tal cantar, conhecendo o efeito de seu esforço, pois duplicado recebe o prêmio. Meus cílios são formados por cinco lumes; aquele que o bico está mais próximo foi o que deu consolo à viúva pelo filho perdido. Ali destacado, pode aquilatar o quanto custa não crer em Cristo, comparando a vida que leva aqui com a oposta, que lá embaixo conheceu. E o que inculca na arcada superior a que me refiro logrou adiar sua morte mercê de esforçada penitência; e sabe que não se podem mudar os decretos do Eterno, se bem que prece fervorosa possa adiar, lá no mundo, os seus efeitos. O que se regue a ele, o Estado transferiu para a Grécia, deixando ao papado o seu lugar (Roma) – ótima intenção que, porém, produziu maus frutos. O mal decorrente de seu bom intento não lhe foi nocivo, muito embora para o mundo haja desastroso. E o que vês ali, no declive já do arco, é Guilherme por quem clamam os territórios que choram sob domínio de Carlos e Frederico. Fica, pois, sabendo que todo o Céu se rejubila quando um rei é bom, do que faz prova, ainda, o brilho que lhe fulge no semblante. Quem, no mundo terreno que tão mal ajuíza, poderia crer que o troiano Rifeu viesse a ser a Quinta dessas luzes santas? Tem ele agora ciência de parte do mistério da graça divina, a qual não é conhecida no mundo senão em parte mínima. Mas ainda assim ele não alcança penetrar o íntimo do mistério.”
139. Assim o símbolo divino ministrou-me adequado ensinamento, para alongar e esclarecer o meu curto entendimento. E qual procede o bom cantor, que se faz acompanhar por hábil músico, tornando com isso mais harmonioso o seu narrar, lembra-me que durante o seu falar, ambas as santas luzes (Rifeu e Trajano) movimentavam-se em harmonia tão perfeita quais pálpebras a bater.
(Dante Alighieri)
-
22:05 - 05/10/2008
- Pacco

NÃO SEI SE É SONHO
Não sei se é sonho, se realidade,
Se uma mistura de sonho e vida,
Aquela terra de suavidade
Que na ilha extrema do sul se olvida.
É a que ansiamos. Ali, ali
A vida é jovem e o amor sorri.
Talvez palmares inexistentes,
Áleas longínquas sem poder ser.
Sombra ou sossego dêem aos crentes
De que essa terra se pode ter.
Felizes, nós? Ah, talvez, talvez,
Naquela terra, daquela vez.
Mas já sonhada se desvirtua,
Só de pensá-la cansou pensar,
Sob os palmares, à luz da lua,
Sente-se o frio de haver luar.
Ah, nessa terra também, também
O mal não cessa, não dura o bem.
Não é com ilhas do fim do mundo,
Nem com palmares de sonho ou não,
Que cura a alma seu mal profundo,
Que o bem nos entra no coração.
É em nós que é tudo. É ali, ali,
A vida é jovem e o amor sorri.
(Fernando Pessoa)
-
19:16 - 04/10/2008
- Pacco

POEMA EM LINHA RETA
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma covardia!
Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
(Fernando Pessoa)
-
14:57 - 01/10/2008
- Pacco

- A 30-1-1979, foi a vez da jovem Madalena Romagnolo, ex-discípula de João Carlos Martins, Atílio Mastro Giovanni, seguindo atualmente as orientações de Yara Ferraz e Amaral Vieira.
No prelúdio e fuga em Si Bemol Maior, vol. 1 n° 21 do “Cravo Bem Temperado”, Madalena Romagnolo assinalou sua presença por uma bonita sonoridade, firme digitocussão, clareza de tratamento das linhas polifônicas. Essa personalidade a serviço da música afirmou-se com igual nitidez nas variações “Abbegg” op.1, de Schumann, composta aos 20 anos, reminiscência dos dias de Heldeberg. A obra mostra como o contexto de variações assume um caráter predominantemente lírico, dando pouca ensancha para a grande eloqüência retórica. Agradou-me o tratamento de Romagnolo nessa deliciosa anagramática e rara página pianística. Entendeu a mensagem, integrou-a na sensibilidade traduziu-a a inteiro caráter. A bravura do “Prélude” da Suite “Pour le Piano” de Debussy revelou o alto grau interpretativo da recitalista, enquanto a evocativa e nostálgica “Sarabande” fluiu perfeita, o que não seria dizer-se da conclusiva “Toccata”, menos por culpa da artista do que a presença de dois operadores da TV Globo, canal 5, os quais sem o mínimo respeito pela hora da arte que então se desenrolava, nem pela atenta audiência, foram tratando de dardejar as ofuscantes luzes dos fortíssimos refletores, a fim de que os “leitores” (!) do “Hoje” tivessem uns trinta segundos de imagem e música! A diretoria responsável pelas promoções musicais do Sesi deveria proibir terminantemente acintes desse jaez no momento da execução, por uma simples questão de respeito ao intérprete ao auditório.
Na 2ª parte, após desinteressante e guarnieriana “Introdução e Choros” de Vasconcellos Correa; umas desidratadas páginas semi-amadorísticas de Clarisse leite, emergiu obra vigorosa, máscula, fortemente definida em termos de criatividade: “Sonata 1971” de Ernst Mahle. Partitura monolítica, apela para os recursos totais do piano forte, por entre passagens politonais de enorme dificuldade agógica que Madalena Romagnolo soube levar de vencida gloriosamente, com decisão, galhardia e suma virtuosidade. Por via de conseqüência, a estréia em SP dessa jovem e brilhante artista é saudada com os encômios a que por direito faz jus. É uma vocação pianística, de muito futuro.
(Redator – José da Veiga Oliveira – Diário Popular de SP) 18-2-1979.
-
22:16 - 30/09/2008
- Pacco

"Pertencer a uma escola poética é o mesmo que ser condenado à prisão perpétua."
"Há duas espécies de livros: uns que os leitores esgotam, outros que esgotam os leitores."
"Só a poesia possui as coisas vivas. O resto é necropsia."
(Mário Quintana)
-
01:11 - 27/09/2008
- Pacco

- "Não é preciso dizer-lhes que o que se denomina estilo de uma época, resulta de uma combinação de estilos individuais, uma combinação dominada pelos métodos dos compositores que exerceram influência preponderante em seu tempo.
É possível dizer que os mestres, superando em toda a sua grandeza a generalidade de seus contemporâneos, irradiaram os raios de seu gênio bem para além de sua própria época.
O capricho individual e a anarquia intelectual, que tendem a controlar o mundo em que vivemos, isolam o artista de seus companheiros de ofício e o condenam a aparecer como um monstro aos olhos do público; um monstro de originalidade, inventor de sua própria linguagem, de seu próprio vocabulário, do instrumental de sua arte.”
(Igor Stravinsky)
-
15:19 - 24/09/2008
- Pacco

- “Para se combater os vícios, nada melhor do que aprimorar as virtudes, com conhecimento de causa. Aí está a chave da questão. O ato de reprimir as viciações é sempre louvável, mas se não vier acompanhado de um processo de auto conhecimento, de auto percepção, não terá sentido. Sem uma atitude racional, sem o devido bom senso, o que temos é a hipocrisia, a repressão cega e insensata com o verniz da virtude piedosa, uma usina produtora de sepulcros caiados.”
-
03:41 - 17/09/2008
- Pacco

MÍSTICO
O ar está cheio de murmúrios misteriosos
E na névoa clara das coisas há um vago sentido de espiritualização…
Tudo está cheio de ruídos sonolentos
Que vêm do céu, que vêm do chão
E que esmagam o infinito do meu desespero.
Através do tenuíssimo de névoa que o céu cobre
Eu sinto a luz desesperadamente
Bater no fosco da bruma que a suspende.
As grandes nuvens brancas e paradas –
Suspensas e paradas
Como aves solícitas de luz –
Ritmam interiormente o movimento da luz:
Dão ao lago do céu
A beleza plácida dos grandes blocos de gelo.
No olhar aberto que eu ponho nas coisas do alto
Há todo um amor à divindade.
No coração aberto que eu tenho para as coisas do alto
Há todo um amor ao mundo.
No espírito que eu tenho embebido das coisas do alto
Há toda uma compreensão.
Almas que povoais o caminho de luz
Que, longas, passeais nas noites lindas
Que andais suspensas a caminhar no sentido da luz
O que buscais, almas irmãs da minha?
Por que vos arrastais dentro da noite murmurosa
Com os vossos braços longos em atitude de êxtase?
Vedes alguma coisa
Que esta luz que me ofusca esconde à minha visão?
Sentis alguma coisa
Que eu não sinta talvez?
Por que as vossas mãos de nuvem e névoa
Se espalmam na suprema adoração?
É o castigo, talvez?
Eu já de há muito tempo vos espio
Na vossa estranha caminhada.
Como quisera estar entre o vosso cortejo
Para viver entre vós a minha vida humana...
Talvez, unido a vós, solto por entre vós
Eu pudesse quebrar os grilhões que vos prendem...
Sou bem melhor que vós, almas acorrentadas
Porque eu também estou acorrentado
E nem vos passa, talvez, a idéia do auxílio.
Eu estou acorrentado à noite murmurosa
E não me libertais...
Sou bem melhor que vós, almas cheias de humildade.
Solta ao mundo, a minha alma jamais irá viver convosco.
Eu sei que ela já tem o seu lugar
Bem junto ao trono da divindade
Para a verdadeira adoração.
Tem o lugar dos escolhidos
Dos que sofreram, dos que viveram e dos que compreenderam.
(Vinícius de Moraes)
-
02:36 - 16/09/2008
- Pacco

A RUA DOS CATAVENTOS
Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.
Hoje, dos meus cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.
Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!
Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!
(Mário Quintana)
-
05:17 - 12/09/2008
- Pacco

IDEOLOGIAS SOBRE MÚSICA
“Independente dessas ideologias regionais e provincianas, tão tipicamente russas, um culto revolucionário e romântico era dedicado a Beethoven. Em concertos, o final da Nona Sinfonia foi muitas vezes executado em conjunção com a (Internacional), composta, como sabem, pelo belga Degeyter. Lenin, por alguma razão desconhecida, considerava a Appassionata “música sobre-humana”. Beethoven era abordado à luz das idéias de Romain Rolland, que, como sabem, ouvia o “tinir de sabres”, o barulho da batalha e as lamentações dos vencidos na sinfonia Heróica. Aqui está, escrita por um dos mais celebrados críticos soviéticos, uma análise desta mesma Terceira Sinfonia.
“Os violinos, em surdina, entoam sua canção sombria e dolorosa. A voz do oboé, mergulhada na tristeza, eleva-se firmemente. Então os guerreiros, em austero silêncio (?), acompanham seu líder para o seu lugar de descanso. Mas aqui não existe desespero. Beethoven, o otimista, o grande amante da Vida, tinha uma idéia muito elevada do homem para repetir as palavras desdenhosas (?) da Igreja cristã: “Tu és pó e ao pó retornarás!” No scherzo e no finale, Beethoven grita com voz de trovão: “Não, tu não és pó, mas, na verdade, o Senhor da Terra!” E, de novo, a imagem fulgurante do herói revive no espirituoso scherzo, bem como no tempestuoso e avassalador finale.”
Qualquer comentário sobre comentário desse tipo seria supérfluo. Em um de seus artigos, um outro crítico e musicólogo, ainda mais proeminente e famoso do que o recém-citado, nos garante que “Beethoven combateu para defender os direitos civis da música como arte, e suas obras não mostram a menor tendência ao aristocratismo”. Como podem ver, tudo isso nada tem a ver com Beethoven, ou com a música, ou com a verdadeira crítica musical.”
-
05:16 - 12/09/2008
«« primeira
|
« anterior
| próxima »
|
última »»
Paginas:
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28