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Livro de recados de Pacco

Pacco
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“Quando não compreendemos a dor, ela nos dilacera; quando entendemos seus fins, ela nos aperfeiçoa.”

“A pessoa verdadeiramente culta não se envergonha de colher informações mesmo junto aos menos instruídos do que ela.”

“Quanto mais aumentam os conhecimentos do homem, tanto mais aumentam suas dúvidas, seu isolamento e sua solidão.”
17:58 - 17/11/2008
Pacco
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“Ser um pensador não é uma questão
de possuir um título acadêmico,
mas de ser um produtor de conhecimento,
de estar em contínuo estado de "gravidez"
de idéias, de questionar o mundo,
de exercitar a arte de pensar...”

(Augusto Cury)
17:47 - 16/11/2008
Pacco
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SE PENA POR AMAR-VOS SE MERECE

Se pena por amar-vos se merece,
quem dela livre está, ou quem isento?
Que alma, que razão, qu' entendimento
em ver-vos se não rende e obedece?

Que mor glória na vida s'oferece
que ocupar-se em vós o pensamento?
Toda a pena cruel, todo o tormento
em ver-vos se não sente, mas esquece.

Mas se merece pena quem amando
contínuo vos está, se vos ofende,
o mundo matareis, que todo é vosso.

Em mim podeis, Senhora, ir começando,
que claro se conhece e bem se entende
amar-vos quanto devo e quanto posso.

(Luís de Camões)
06:00 - 16/11/2008
Pacco
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Alegres campos, verdes arvoredos,
Claras e frescas águas de cristal,
Que em vós os debuxais ao natural,
Discorrendo da altura dos rochedos,

Silvestres montes, ásperos penedos,
Compostos em concerto desigual:
Sabei que, sem licença de meu mal,
Já não podeis fazer meus olhos ledos.

E, pois me já não vedes como vistes,
Não me alegrem verduras deleitosas,
Nem águas que correndo alegres vêem.

Semearei em vós lembranças tristes,
Regando-vos com lágrimas saudosas.
E nascerão saudades de meu bem.

(Luís de Camões)
16:25 - 14/11/2008
Pacco
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BEM-AVENTURADO AQUELE QUE AUSENTE

Bem-aventurado aquele que ausente
do reboliço, tráfego e tumulto,
vê de longe as perdas e insultos,
que faz o mundo vil da néscia gente.
Aos cuidados tem posto freio,
mui alheio
do perigo
que consigo
traz a vida
que, embebida
no peçonhento gosto da cobiça,
o fogo com que arde assim atiça.

Não se mantém no gosto dos favores,
enlevado em falsas esperanças;
vis lhe parecem e baixas as privanças
dos Príncipes, dos Reis e dos Senhores;
por abundância tem e por riqueza
a pobreza;
que, imigra
da fadiga,
não contente,
descontente
por ver o coração que, por viver
sem cuidado e temor, quis pobre ser;

pisa, com peito forte e animoso,
as ambições que os olhos de alma cegam;
despreza as vãs promessas que enlevam
ao vão pensamento cuidadoso
- este por mau e por perverso sempre tive -;
e assim vive,
porque a vida
consumida
com cuidados
escusados,
e sujeita a desconcertos da Ventura,
não é vida vital, mas morte pura.

Não tiram o doce sono as lembranças
importunas do bem ou mal futuro;
os várias sucessos vê seguro,
livre de medo, isento de mudanças.
E posto que a vida breve seja,
não deseja
entendê-la;
goza dela,
que parece
que enriquece.
Porque a vida ocupada em buscar vida,
acha-se mal gastada e não crescida.

Não anda entre amigos encobertos,
a perigos imensos avisado;
mas, com ânimo constante e sossegado,
goza dos corações leais e certos.
Quando o bravo mar furioso
belicoso
fogo acende,
e pretende
com estranha
ira e sanha
roubar a cara paz cá na terra,
com sossego está-se rindo da guerra.

Não ouve da trombeta temerosa
o rouco som que assombra o esforçado;
não teme do cruel e vão soldado
a espada de sangue cobiçosa;
nem o pelouro da espingarda saindo,
retinindo,
pelo ar voa
ledo e soa;
mas descendo,
não se vendo
vai ferir entre muitos o coitado,
que tal caso está bem descuidado.

E posto que o livre entendimento
cativa a vista, e regra a lei que segue,
e a outra vontade a sua entregue,
refreando o errado pensamento;
contudo, tem mais certa liberdade
a vontade
que aceita
ser sujeita,
porque os danos
e enganos
que procedem do próprio parecer,
senhor de si a um não deixa ser.

Ora da baixa terra alevanta
o esperto pensamento ao céu formoso,
e da vida e de si mesmo queixoso,
morre por possuir riqueza tanta;
ora com doces ais o céu rompendo,
e gemendo
diz a morte:
dura sorte,
se vieras
e me deras
um golpe tão esquivo que morrera,
por verdadeira vida te tivera.

(Luís de Camões)

17:31 - 10/11/2008
Pacco
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BANDIDO NEGRO

Trema a terra de susto aterrada...
Minha égua veloz, desgrenhada,
Negra, escura nas lapas voou.
Trema o céu ... ó ruína! ó desgraça!
Porque o negro bandido é quem passa,
Porque o negro bandido bradou:

Cai, orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.

Dorme o raio na negra tormenta...
Somos negros... o raio fermenta
Nesses peitos cobertos de horror.
Lança o grito da livre corte,
Lança, ó vento, pampeiro de morte,
Este guante de ferro ao senhor.

Cai, orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.

Eia! ó raça que nunca te assombras!
Pra o guerreiro uma tenda de sombras
Arma a noite na vasta amplidão.
Sus! pulula dos quatro horizontes,
Sai da vasta cratera dos montes,
Donde salta o condor, o vulcão.

Cai, orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.

E o senhor que na festa descanta
Pare o braço que a taça levanta,
Coroada de flores azuis.
E murmure, julgando-se em sonhos:
"Que demônios são estes medonhos,
Que lá passam famintos e nus?"

Cai, orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.

Somos nós, meu senhor, mas não tremas,
Nós quebramos as nossas algemas
Pra pedir-te as esposas ou mães.
Este é o filho do ancião que mataste.
Este - irmão da mulher que manchaste...
Oh! não tremas, senhor, são teus cães.

Cai, orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.

São teus cães, que têm frio e têm fome,
Que há dez séc'los a sede consome...
Quero um vasto banquete feroz...
Venha o manto que os ombros nos cubra.
Para vós fez-se a púrpura rubra,
Fez-se a manto de sangue pra nós.

Cai, orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.

Meus leões africanos, alerta!
Vela a noite... a campina é deserta.
Quando a lua esconder seu clarão
Seja o bramo da vida arrancado
No banquete da morte lançado
Junto ao corvo, seu lúgubre irmão.

Cai, orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.

Trema o vale, o rochedo escarpado,
Trema o céu de trovões carregado,
Ao passar da rajada de heróis,
Que nas éguas fatais desgrenhadas
Vão brandindo essas brancas espadas,
Que se amolam nas campas de avós.

Cai, orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz

(Castro Alves)
15:06 - 08/11/2008
Pacco
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“Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos em si tão concertados,
Que dous mil acidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente.

Farei que amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, suspiros magoados,
Temerosa ousadia e pena ausente.

Também, Senhora, do desprezo honesto
De vossa vista branda e rigorosa,
Contentar-me-ei dizendo a menor parte.

Porém, para cantar de vosso gesto
A composição alta e milagrosa,
Aqui falta saber, engenho e arte.”

(Luís de Camões)

11:06 - 07/11/2008
Pacco
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“No mais, Musa, não mais; que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida;
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho,
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
De uma austera, apagada e vil tristeza.”

(Luís de Camões)
10:40 - 07/11/2008
Pacco
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Suspiros inflamados, que cantais

Suspiros inflamados, que cantais
a tristeza com que eu vivi tão ledo!
Eu mouro e não vos levo, porque hei medo
que, ao passar do Leste, vos percais.

Escritos para sempre já ficais
onde vos mostrarão todos co dedo
como exemplo de males; que eu concedo
que para aviso de outros estejais.

Em quem, pois, virdes falsas esperanças
de Amor e da Fortuna, cujos danos
alguns terão por bem-aventuranças,

dizei-lhe que os servistes muitos anos;
e que em Fortuna tudo são mudanças,
e que em Amor não há senão enganos.

(Luís de Camões)
20:54 - 06/11/2008
Pacco
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Tornai essa brancura à alva açucena

Tornai essa brancura à alva açucena,
e essa purpúrea cor às puras rosas;
tornai ao sol as chamas luminosas
dessa vista que a roubos vos condena.

Tornai à suavíssima sirena
dessa voz as cadências deleitosas;
tornai a graça às Graças, que queixosas
estão de a ter por vós menos serena.

Tornai à bela Vênus a beleza;
a Minerva o saber, o engenho e a arte;
e a pureza à castíssima Diana.

Despojai-vos de toda essa grandeza
de does; e ficareis em toda a arte
convosco só, que é só ser inumana.

(Luís de Camões)
20:39 - 06/11/2008

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